O Alienista — Quem define a loucura?
Autor: Machado de Assis
Gênero: Conto clássico, Literatura brasileira
Publicação: 1882
Páginas: 72
🛒 Comprar Livro
Autor: Machado de Assis
Gênero: Conto clássico, Literatura brasileira
Publicação: 1882
Páginas: 72
🛒 Comprar LivroPublicado em 1882, O Alienista acompanha o retorno do doutor Simão Bacamarte à cidade de Itaguaí. Formado em Coimbra e Pádua, considerado o melhor médico de Portugal, Brasil e das Espanhas, ele chega com um projeto ambicioso: estudar a mente humana de forma científica e sistemática. Para isso, funda a Casa Verde — que rapidamente deixa de parecer um hospital e passa a funcionar como uma prisão, chegando a abrigar três quartos da população da cidade.
O desfecho é tão irônico quanto inevitável: depois de anos classificando a loucura alheia, o próprio Bacamarte se enjaula na Casa Verde para estudar a si mesmo.
Eu já sabia o desfecho antes de abrir o livro — e mesmo assim decidi lê-lo, porque tenho a meta de ler toda a obra de Machado de Assis, ainda que contos clássicos não sejam exatamente o meu gênero favorito. O que não esperava era ser surpreendida no meio do caminho.
No início, achei o conto engraçado. Os exageros do alienista têm um humor quase absurdo: pessoas presas por motivos completamente triviais, uma lógica científica levada ao extremo do ridículo. Mas quando o barbeiro deu início à rebelião dos canjicas — com mortos, feridos e um líder que rapidamente adotou os mesmos vícios que criticava nos poderosos — o livro mudou de tom para mim.
Foi nesse momento que percebi: O Alienista nunca foi apenas uma sátira ao exagero científico do naturalismo, período em que Machado escrevia. É também uma crítica política afiada — e assustadoramente atual.
A rebelião dos canjicas me lembrou A Revolução dos Bichos, de George Orwell. A lógica é a mesma: quem derruba o opressor acaba, muitas vezes, reproduzindo a opressão. E quem dita a sanidade das pessoas são justamente aqueles que cometem os atos mais insanos — os que mandam em nossas vidas.
Chegando nos últimos capítulos, as coisas pareciam caminhar para lugar nenhum. Bacamarte mudava seus critérios, libertava internos, mas continuava prendendo outros. Achei até um tanto trágico que os pacientes saíssem da Casa Verde piores do que entraram — menos ajuizados, mais cruéis, talvez mais preparados para sobreviver no mundo real. E aí estaria mais uma camada de crítica.
Mas o final me pegou de surpresa, e para melhor. Eu esperava que Bacamarte se trancasse por culpa — como penitência por ter aprisionado tantos inocentes. Não. Ele se enjaula porque se vê como um espécime em perfeito estado mental, digno de estudo científico. Até o último momento, a ciência vem antes de tudo. É perturbador. É genial.
Não é o tipo de história que me atrai naturalmente, mas saí diferente depois de lê-la. Machado consegue ser irônico, político, filosófico e divertido ao mesmo tempo — em apenas 72 páginas. E a pergunta que fica ressoa muito além do século XIX: quem tem o direito de definir quem é louco?
Estou ansiosa pela próxima leitura. Tenho a sensação de que ainda há um mundo completamente novo para desbravar em Machado de Assis.
"Quem dita a sanidade são justamente aqueles que cometem os atos mais insanos."